quarta-feira, 4 de maio de 2011

CORAL DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO - UMA ANTOLOGIA [IM]POSSÍVEL

I-Tunes

CORAL DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO


Fernando Lopes-Graça

Canções Regionais Portuguesas 


Uma Antologia (Im)possível


Coral de Letras da Universidade do Porto
José Luis Borges Coelho, direcção

"A relação do Coral de Letras da Universidade do Porto (CLUP) com a música de Fernando Lopes-Graça (FLG) é tão antiga e constante quanto a existência do próprio Grupo.
Entendeu-se, desde o princípio (1966), que a um grupo coral amador português competia cultivar, em primeiro lugar, a música do seu próprio País. Esse imperativo fundador, de pendor identitário, que assumíamos com tão meridiana clareza, implicava que reservássemos um lugar privilegiado, na programação corrente, à música que carrega, indeléveis, as marcas que nos distinguem e nos afirmam como povo – e essa é, sem dúvida, a música de raiz popular."




José Luís Borges Coelho


Informação detalhada:


Fernando Lopes-Graça
Canções Regionais Portuguesas 
Uma Antologia (Im)possível


Coral de Letras da Universidade do Porto
José Luis Borges Coelho, direcção


\"A relação do Coral de Letras da Universidade do Porto (CLUP) com a música de Fernando Lopes-Graça (FLG) é tão antiga e constante quanto a existência do próprio Grupo. 
Entendeu-se, desde o princípio (1966), que a um grupo coral amador português competia cultivar, em primeiro lugar, a música do seu próprio País. Esse imperativo fundador, de pendor identitário, que assumíamos com tão meridiana clareza, implicava que reservássemos um lugar privilegiado, na programação corrente, à música que carrega, indeléveis, as marcas que nos distinguem e nos afirmam como povo – e essa é, sem dúvida, a música de raiz popular. De modo que a sua presença se fez constante na nossa actividade. Desde o concerto de estreia. Não precisámos de esperar pelos efeitos devastadores desencadeados pelo fenómeno da globalização sobre a diversidade cultural do Planeta - hoje tão agudamente percepcionados - para definirmos o nosso caminho. Não víamos que competisse a outros - espanhóis, franceses, ingleses... japoneses, polinésios - a assunção dos nossos valores. Simplesmente isso.
Ora, se o panorama, no que à música de raiz popular respeita - pelo influxo, directo ou indirecto do compositor a quem se dedica este registo monográfico - se encontra hoje, em Portugal, incomparavelmente mais rico, a verdade é que, durante as primeiras décadas da vida do CLUP, Fernando Lopes-Graça era, nesse concreto domínio, a grande, praticamente única, referência . Donde resultou aquela espécie de fixação que ciclicamente nos trouxe alimentados, em exclusivo, com a obra do Compositor. Um ano e outro ano. Concerto atrás de concerto. Dentro e fora do País. A tal ponto que não faltava quem suspeitasse que não fazíamos - nem saberíamos fazer - outra coisa...
Mas, por esse Portugal abaixo, outros como nós iam afinando, mais coisa menos coisa, pelo mesmo diapasão. 
A explicação para um crédito que se alargava - e é hoje tão unânime - há-de residir no êxito com que o Compositor aplicou a esta parte da sua obra aqueles dois ou três princípios programáticos que um dia enunciou a Francine Benoit, em entrevista que, depois de transformada e desenvolvida, veio a constituir o capítulo Sobre a Canção Popular Portuguesa e o seu Tratamento Erudito, inserto em A Música Portuguesa e os seus Problemas I - um dos volumes das suas Obras Literárias. A descoberta de insuspeitadas virtualidades na nossa canção rústica, determinara-o a olhar por ela e, posto que as ferramentas de que já dispunha se lhe apresentavam perfeitamente adequadas a tal escopo, nem precisaria de se desviar do seu rumo para o levar por diante:
“... Como compositor, vim a concluir que o tratamento artístico da canção popular portuguesa é perfeitamente compatível com todos os recursos e conquistas da moderna técnica e gramática musicais; e direi mesmo que só aplicando-lhe, com o devido discernimento, está bem de ver, esses recursos e conquistas, é que ela se poderá valorizar completamente.”
Esclarecedor, quanto baste. 
Recolhe-se aqui um punhado dessas canções, jóias dum tesouro que, guloso, o Compositor abundantemente surripiou, no intuito confesso de colher do seu acto, premeditado e anos a fio repetido, um melhor conhecimento das gentes que o amealharam - como um dia, de viva voz, anunciou, na apresentação dum concerto do seu Coro da Academia de Amadores de Música . Daí haveria de colher também – diremos nós – uma disposição da sua própria linguagem a repercutir, a seu modo, depois de aturada decantação, a das suas raízes. Eis por que, ao devolver ao povo cada uma das canções “roubadas” – ele o disse e o escreveu –, o faz acrescentando-lhe o “juro” da dívida que se lhe representa mais ajustado e que outro não é senão o tal ‘tratamento erudito”, ou “artístico”, aquela espécie de “moldura” – como também lhe chamava agora –, caso a caso desenhada, no fito de melhor realçar os contornos físicos – e mesmo psíquicos – do modelo. 
Ora, é justamente esse juro, essa moldura, o que nos faz correr, o que, tão longamente, nos traz na sua órbita. É que a nossa canção rústica, depois que passou pelo crivo do Mestre, por um crivo em cuja urdidura entram, em partes iguais, sensibilidade e domínio técnico e, no miolo, uma assimilação (até aos cromossomas - não resistimos a considerar) da matéria ‘tratada’ (também aquela sabedoria que, para bem de todos nós, o não fez correr a foguetes...), a nossa canção rústica - ia-se escrevendo - depois que o Mestre assim lhe pôs a mão, apanhou-se a trocar o ar livre dos campos de Portugal - aonde agonizava, a golpes do progresso - pelo recolhimento das salas de concerto, com o que cobrava vida nova, feita obra de arte: essa que aí, nesse registo, se deixa, modestamente, entremostrada. 
A modéstia, evidentemente, é a da nossa contribuição para o produto final. E o que aqui se traz - ou se ‘entremostra’ - não passa duma parcela ínfima duma safra muito generosa: 26 exemplares tão-só, de um universo de 267, quantos os que acabaram reunidos nas 24 séries de Canções Regionais Portuguesas, e ainda nas 2 Cantata(s) do Natal. (Disperso e em ‘tratamento’ não coincidente, andarão muitos espécimes, consoante pôde concluir o autor destas linhas, numa tarde em que compulsou, um tanto à vol d’oiseau, o espólio de Virgílio Pereira, na bela casa que o ilustre etnólogo e maestro teve em Mancelos e que continua na posse da família. Facto é que, devidamente chanceladas, ficaram vinte e seis colectâneas). E aí está como chegámos ao número de faixas deste registo: tomámos de cada série uma canção, acrescentando ao número assim achado mais uma de cada cantata. 
Foi pelo critério utilizado, mas não exclusivamente por ele, que se nos representou (Im)possível a Antologia. A escolha - dificílima, ainda quando limitada ao conjunto restrito duma série - acabou sendo a resultante duma complexa equação em que as nossas predilecções nem sempre foram o factor preponderante. Dito de outro modo: tão rico é esse verdadeiro florilégio legado pelo Compositor para nosso deslumbre, que não se pode afirmar que a nossa Antologia reflicta em absoluto as nossas preferências. Na hora de decidir, impôs-se-nos também, como critério da maior importância, a necessidade de se dar satisfação bastante àquele clássico - e sábio - princípio segundo o qual ao belo convém sobremaneira a variedade.
De modo que, mesmo com o cutelo do tempo a ameaçar abater-se sobre a nossa empresa em plena demanda da impossível perfeição, acabámos por trazer aqui um bom ramalhete daqueles espécimes que se não entregam ‘às boas’, autênticos bojadores que ninguém dobra sem que se disponha denodadamente a arrostar com inopinadas dores. 
A primeira canção - Canção da vindima - é também a 1ª da Série I. Por isso a escolhemos: abríamos com a abertura. Quantas preciosidades deixadas para trás, logo aí! Mas a razão, boa ou má, em nada desdiz do interesse evidente da cantiguinha, da vivacidade contagiante duma linha melódica a que nem falta, brevíssimo, um toque de exotismo; como não desdiz da aptidão que mostra para servir com igual eficácia - ou igual distanciamento? - o despeito mordaz, se os amores se desavêm, a exultação do encontro, se se avêm. E que dizer, depois, da mão do Compositor nesta sua nova especialidade, neste arranque para uma demanda que haveria de o perseguir praticamente até ao resto dos seus dias?
Mas não seguimos o mesmo critério quando compulsámos a série XXIVª : não escolhemos a última. Simplesmente porque - admitimos - nunca o quis ser. Como quer que seja, aí, seduziu-nos, irremediavelmente, a canção açoriana - da louçania duma redondilha que uns apartes entre o amoroso e o pícaro interpolam, 

O meu amor quer que eu tenha 
Ó meu bem
Juízo e capacidade
Olé meu bem... Olé meu bem...
Tenha ele que é mais velho 
Ó meu bem 
Que eu sou de menor idade 
Olé meu bem... Olé meu bem...;

à linha de canto, primeva, à cassa - finíssima! - de que o Compositor a envolveu. Um apuro! De render o mais distraído. 
A ordem por que apresentamos as canções não procurou nexos. Não nos consumimos a agregar por blocos temáticos os conteúdos poéticos sobre que se moldam as cantigas. Aliás, alguns revelar-se-iam razoavelmente avessos a arrumações, sempre estanques, como é da sua natureza: sempre alguma coisa sobra sem destino que se lhe dê. E Outros ou Outras é albergue que não calharia escorreitamente neste lugar. Salvou-nos desse desatino a pura obediência ao critério que serviu de base à organização da Antologia: à 12ª faixa corresponde, simplesmente, a canção retirada da XII Série.
Uma referência, por reduzida que fosse, a cada uma das canções, não iria caber nestas notas. Diremos tão-só que, entre aquela primeira e aquela última, mormente a partir de meio da jornada, os temperos se foram fazendo progressivamente mais fortes, bastante mais fortes. Eis por que, depois de fartamente vos (nos) termos servido de sal, de pimenta, de malagueta, optámos por açúcar, para sobremesa: as duas canções de Natal são do mais doce que a cozinha do Mestre alguma vez serviu. 
Os textos de certas canções desafiam todas as convenções. Situam-se algures entre as rugosidades graníticas do românico português (do nortenho, sobretudo), os barros populares duma Rosa Ramalho, ou de sua neta Júlia (ou os dum Mistério), e as ousadias modernistas que, em seu tempo, fizeram de Picasso a pedra de escândalo que se sabe, e lhe não hão-de ter vindo, propriamente, do nada. A elipse, o desalinho do tempo verbal, a imprevisível adjectivação, a imagem que desconcerta, a desconcertada concatenação dos passos em trovas que são romanescas (Andorinha gloriosa / tão perfeita como a rosa / Quando Deus aqui nasceu / Toda a terra estremeceu. / Veio o Anjo Gabriel / perguntar pelos pastores: Pastorinhos de bom dia, / aqui está Santa Maria, C’o seu livrinho na mão, / rezando a oração.) tudo isso anda por ali à rédea solta. Não raro a orelha parece estar na testa, ou no queixo; ou nos olham de frente os dois olhos dum rosto que está de lado. Mas tudo bate certo, ao fim. O gosto estético sobrepuja, intocado, os aparentes desmandos da gramática. 
Todos esses textos são rigorosamente populares, ainda quando não sejam os originais. Para certos espécimes, FLG colheu no cancioneiro poético popular, ‘letra’ que em seu entender melhor quadraria às qualidades intrínsecas da melodia sub judice. Com toda a probabilidade, valeu à sua intuição um precioso livrinho de Jaime Cortesão - O que o Povo Canta em Portugal, Trovas, Romances, Orações e Selecção Musical, Rio de Janeiro, 1942. Aí se podem encontrar, por exemplo, as desafrontadas trovas deste Canta, camarada, canta , que muitos de nós conheceram acrescentadas de outras, fabulosas, do poeta Aleixo. Como aquela
Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos, que pode o Povo
Qu’rer um mundo novo a sério!

As melodias são - todas, sem excepção - magníficas. 
- “Ó mãe, por que é que ‘o Graça’ estraga as músicas todas?...” - futurava o Compositor que desatassem a perguntar todos os meninos pedrinhos deste País , à semelhança daquele Pedrinho a quem ele ouviu, um dia, disparar a inquietante pergunta. Os ‘estragos’ (por momentos deixamos cair as ‘molduras’...) a que o fino gosto do Mestre sujeitou essas melodias, primeiro, estranham-se; não se lhes percebe, um tempo, o alcance; mas depois entranham-se (que se me releve o lugar comum, irrecusável aqui - haverão de conceder-mo). É como aqueles néctares que, à primeira, nos desmoralizam, mas que, se insistimos e não nos precatamos, podem fazer-se vício. Há, só, que saborear... Sem pressa. Uma e outra vez. 
Assim a nossa prestação vo-los traga servidos à temperatura que mais convém. 
Fernando Lopes-Graça (1906-1994) é autor duma vastíssima obra musical que abarca praticamente todos os géneros: da música de câmara, nas mais variadas combinações, ao concerto e à sinfonia; da música vocal a-cappella ou com acompanhamento instrumental, solista ou coral, às grandes formações corais sinfónicas (Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal). Na última publicação onde se faz o inventário dessa obra, chega ela ao op. 250. Contudo, basta considerar - para nos socorrermos de exemplo que o leitor já conhece - que todas as 24 séries de Canções Regionais Portuguesas - vêm ali incluídas no op. 39 (embora as séries I e II tenham o seu próprio nº de opus), para se perceber que esse número não é nada revelador da sua verdadeira dimensão. 
Da sua música vocal – a que vem aqui chamada - diremos que a molda, magnificamente, a língua que vise servir (ou será o contrário?), merecendo-lhe a portuguesa, que cultivou ao mais alto nível, especialíssimos cuidados: seja, como aqui, no domínio da poética popular (que não se reduz - longe disso - à redondilha maior ou ao verso de pé-quebrado), seja no da melhor poesia, que o estro do Artista se meteu a servir - sobretudo na obra que destinou ao canto e piano - em toda a extensão de um percurso histórico que vai quase em nove séculos.
É também autor duma volumosa obra literária, através da qual o ‘artista intervém’, valendo-se de um domínio da língua que em nada desmerece dos melhores cultores dela. 
Grande figura da cultura portuguesa ao longo de quase setenta anos (atravessou o século XX da primeira à última década), foi um activo militante das grandes causas da emancipação da humanidade, o que, por mais de quatro décadas - tantas as que durou o regime derrubado em 25 de Abril de 1974 -, lhe acarretou não poucos nem pequenos dissabores – prisão, desterro, perda dos mais elementares direitos cívicos. A própria actividade docente, de que basicamente vivia, acabou por lhe ser vedada.
Intenta este registo celebrar o Compositor a quem a música e a cultura pátrias tanto devem e surge por ocasião do Centenário da Universidade do Porto, a 22 de Março de 2011.
Patrocina-o a Reitoria da Universidade.\"
José Luís Borges Coelho


1. Canção da vindima
(Beira Baixa)

2. A Senhora d’Aires
(Baixo Alentejo)

3. Já os passarinhos cantam
(Beira Baixa)

4. Romance de Mirandum
(Trás-os-Montes)

5. Canta, camarada, canta
(música da Beira Alta. 
Letra do Cancioneiro Popular adaptada)

6. Romance da andorinha gloriosa – Fragmento (Beira Litoral)

7. Quatro laços da dança dos paulitos
(Trás-os-Montes)

8. Não quero que vás à monda
(Alentejo)

9. Romance da menina cativa
(Trás-os-Montes)

10. Senhora do Livramento
(Beira Alta)

11. Menina, se bem me queres
(Douro Litoral)

12. Oh que novas tão alegres
(Beira Baixa)

13. Vai colher a rosa
(Alentejo)

14. Ó meu divino Senhor
(Beira Alta)

15. As sécias
(Beira Baixa)

16. Dormi, menino, dormi
(Ilha de S. Jorge - Açores)

17. A Senhora do Desterro
(Beira Alta)

18. Segadinhas, segadinhas
(Minho)

23. Nossa Senhora da Guia
(Beira Alta)

24. Ó meu bem...
(Ilha dp Faial, Açores)

25. Confusa, perdida
(Natal)

26. O Menino nas palhas
(Natal)


Ref.: NUM 1213




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terça-feira, 3 de maio de 2011

VIOLINO EM PORTUGAL

LUÍS PACHECO CUNHA, VIOLINO / EURICO ROSADO, PIANO / 
PEDRO WALLENSTEIN, CONTRABAIXO


I-Tunes:

A produção de música para violino é, em Portugal, esparsa e irregular, revelando da parte dos criadores (e do público) uma relação difícil com um instrumento quase que “estrangeirado” (é revelador o facto de, na nomenclatura oficial, ter permanecido, até meados do século XX, a “rabeca”). Ainda hoje são o piano e a voz quem enchem as salas de concerto.

Se já anteriormente encontramos algumas obras interessantes, é, sem dúvida, no séc. XX, que se revela a grande viragem no terreno da criação musical. 
As obras que preenchem este CD são exemplos de boa escrita para o instrumento ao nível das melhores produções europeias. Um idiomatismo fluído que acompanha as tendências do seu tempo, no barroco, romantismo, impressionismo, neo-classicismo ou na expressão da mais recente contemporaneidade.


Informação detalhada:


Notas
A produção de música para violino é, em Portugal, esparsa e irregular, revelando da parte dos criadores (e do público) uma relação difícil com um instrumento quase que “estrangeirado” (é revelador o facto de, na nomenclatura oficial, ter permanecido, até meados do século XX, a “rabeca”). Ainda hoje são o piano e a voz quem enchem as salas de concerto.
Se já anteriormente encontramos algumas obras interessantes, é, sem dúvida, no séc. XX, que se revela a grande viragem no terreno da criação musical.
As obras que preenchem este CD são exemplos de boa escrita para o instrumento ao nível das melhores produções europeias. Um idiomatismo fluído que acompanha as tendências do seu tempo, no barroco, romantismo, impressionismo, neo-classicismo ou na expressão da mais recente contemporaneidade.

Os Criadores e a sua Música:
Os elementos biográficos que PEDRO LOPES NOGUEIRA nos legou remetem-no para o limbo do quase anonimato – uma pequena referência num documento da Irmandade de Santa Cecília, da primeira metade do século XVIII. Deixou-nos, porém, uma completíssima e maravilhosa obra para rabeca, já considerada entre os mais importantes manuais produzidos na época para aquele instrumento. Interpreta-se o Prelúdio e Fantazia no 6º Tom (Fá M), repleto de invenção rítmica aquele, de energia e vivacidade esta última.

FRANCISCO de SÁ NORONHA notabilizou-se, no nosso meio académico (graças, entre outros, aos trabalhos de Luísa Cymbron) como criador dos primeiros exemplos da ópera “nacional”. Biógrafos mais próximos da sua época, como Ernesto Vieira, enfatizam, particularmente, a sua carreira de violinista virtuoso e compositor de notáveis páginas para esse instrumento. Uma imensa curiosidade e destreza autodidacta e breves contactos com a herança de Paganini, através do seu discípulo Camillo Sivori, permitiram a Noronha esgrimir trechos de enorme complexidade técnica e lirismo inventivo. Estas variações a três vozes constituem uma homenagem a Thalberg (um sério concorrente de Liszt) e ao seu famoso “piano a três mãos”. É feérica a transposição desta técnica (que consiste em tocar três planos musicais em simultâneo) para um instrumento monódico como o violino. Noronha realiza-o com verdadeiro panache.

Não sendo, porventura, das obras mais significativas de Mestre VIANNA DA MOTTA, esta Romanza, em Ré M, faz alarde de um requintado lirismo e notável consistência formal. Uma incursão central a Si b M permite ao compositor utilizar uma longa ponte harmónica no regresso à tonalidade mãe. A simplicidade esclarecida deste trecho faz-nos lamentar ainda mais o desaparecimento da sua Sonata para violino e piano.

O Romance de LUÍS BARBOSA (pai e primeiro mestre do violinista Vasco Barbosa) é uma deliciosa peça de encore, característica do repertório dos violinistas concertistas do princípio do séc. XX, particularmente interessante no desenvolvimento da paleta harmónica, denotando profundas influências do impressionismo francês.

O ciclo D\' Aquém e d\' Além-mar de CLÁUDIO CARNEYRO – ilustre violinista e compositor portuense – escrito entre 1925 e 1926, do Porto a Paris, foi o primeiro conjunto de peças que dedicou a sua esposa, Catherine Hickel, também violinista, que estreará a obra em 1926 nos EUA (Worcester). Revela-se um jovem compositor em busca de uma linguagem musical nacional, ainda sob forte influência do romantismo francês tardio de um Fauré ou Franck. A inspiração programática – alusão às viagens, ao mar, à saudade – não podia mais explicitamente navegar na nau pátria.
A descoberta deste Nocturno de JOLY BRAGA SANTOS constituiu para o autor destas notas uma muito agradável surpresa, impondo-se, em absoluto, a sua presença neste projecto. A obra explora sonoridades densas, um respirar profundo mesmo no registo ultra agudo do violino, ao serviço de um fraseado dolente, complexo e muito expressivo. Talvez a principal originalidade desta composição consista no frequente e muito inspirado recurso ao salto de tessituras, em rasgos de grande dramatismo.
O material exposto pelo piano é característico de um discurso cadencial, de tipo recitativo. A obra foi estreada em 1942 por Silva Pereira e João de Freitas Branco.

As Quatro Miniaturas, de FERNANDO LOPES-GRAÇA, foram compostas em 1980. Trata-se de quatro peças muito contrastantes em carácter e recursos discursivos que, à imagem das demais incursões do compositor na escrita para este conjunto instrumental, albergam momentos de grande inspiração melódica, um aturado trabalho rítmico e tímbrico, num virtuosismo esclarecido mas nunca ostensivo.

DANIEL SCHVETZ é a única presença não portuguesa neste projecto. Justifica-se não apenas pela sua longa residência entre nós – tendo gerado interessantes fusões de influências musicais – como por um dos critérios determinantes da minha escolha dos autores contemporâneos a incluir (e englobo aqui Schvetz, Viana, Vasques-Dias, Tinoco mas também Lopes-Graça): a amizade que a eles me une e alguns (por vezes muitos) anos de trabalho conjunto. Ejstake é uma peça onde abundam referências rítmicas latinas e uma vivacidade muito contrastante com o tradicional “gesto” nostálgico da composição portuguesa.
“A partir de uma série de desenhos feito pelo meu filho Pedro, com dois anos e meio, aos quais ele dava nomes vindos do seu imaginário compus uma série de quatro obras - Paskut, para violino e piano, Recherarat, para contrabaixo e piano, Os Cupc para violino, contrabaixo e piano e, finalmente, Ejstake, para violino e contrabaixo.” [nota do autor]

LUÍS TINOCO dedicou esta obra a Luís Pacheco Cunha em 1997.
“Embora o título possa sugerir um conjunto de três instrumentos ou uma forma tripartida, com efeito é escrito para um duo de violino e piano que tocam quatro diferentes secções. A ideia de \"tríptico\" surge como consequência da sobreposição de três vozes apresentadas pelo violino e pelas mãos esquerda e direita do piano. Este processo está presente ao longo das primeiras três secções, mas, chegando ao fim, as linhas horizontais tendem a misturar-se e, nos compassos finais, o violino toca um \"canto longínquo\" que dobra as notas agudas dos \"clusters\" do piano.” [nota do autor]

Cru é a terceira incursão do compositor CÉSAR VIANA no material de que terão sido feitos os sonhos – antes, os pesadelos – de D. Pedro e D. Inês de Castro. Depois das partituras para grande orquestra e grupo de câmara (oito elementos), esta versão para violino solo revela uma notável capacidade de síntese, de coesão programática e recria planos de idiomatismo que constituem novas fronteiras para o instrumento e seus intérpretes.

Esgrafitos, uma obra de AMÍLCAR VASQUES-DIAS, são formas de arte decorativa típicas da paisagem urbana alentejana, introduzindo elementos de cor forte que quebram a nitidez cruel das grandes superfícies brancas de cal. Esta composição desenvolve a energia emanante desse confronto de Branco / Contra o Branco culminando numa exuberante farândola de ritmo e cor.
ESGRAFITO (do it. sgraffito, sgraffiare, arranhar) ornamento nas fachadas dos edifícios. Obtém-se riscando (arranhando) com estilete ou com colher de alvanel um desenho na argamassa ainda fresca das paredes.

Notas de Luís Pacheco Cunha

Fernando LOPES-GRAÇA [Tomar, 1906-Parede, 1994]
1/4. Quatro Miniaturas [1980]
04’33’’ 1. Preludio - 2. Melodia - 3. Mandolinata - 4. Exercício

Joly BRAGA SANTOS [Lisboa, 1924-1988]
5. Nocturno [1942]
07’44’’
Amílcar VASQUES-DIAS [Badim, 1945]
6. Esgrafitos [2005] Obra dedicada a Luís Pacheco Cunha / Work dedicated to Luís Pacheco Cunha
07’23’’
Cláudio CARNEYRO [Porto, 1895-1963]
7/9. D\' Aquém e d\' Além-mar, op. 20, nº 3 (1925-26)
10’36’’ 7. Pelo oceano voga sem âncora minha nau saudade - 8. Ausência - 9. Regresso

José Vianna da MOTTA [S.Tomé, 1868-Lisboa, 1948]
10. Romanza
04’13’’
Daniel SCHVETZ [Buenos Aires, 1955; reside em Portugal desde 1990]
11. Ejstake [1995] Obra dedicada a Luís Pacheco Cunha / Work dedicated to Luís Pacheco Cunha
06’23’’
Francisco de Sá NORONHA [V.Castelo, 1820-Rio Janeiro, 1881]
12. Variações a três vozes sobre um tema de Thalberg [Estreia moderna / Modern première]
07’56’’
Luís BARBOSA [Lisboa, 1887-1952]
13. Romance
03’28’’
César VIANA [Southampton, 1963]
14. Cru [2005] Obra dedicada a Luís Pacheco Cunha / Work dedicated to Luís Pacheco Cunha
06’59’’
Pedro Lopes NOGUEIRA [1ª metade séc. XVIII]
15/16. Prelúdio e Fantazia [Estreia moderna / Modern première]
04’12’’
Luís TINOCO [Lisboa, 1969]
17. Tríptico [1997] Obra dedicada a Luís Pacheco Cunha / Work dedicated to Luís Pacheco Cunha
06’11’’



Ref.: NUM_1214


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DESNUDO

JOANA MACHADO, VOZ
AMÍLCAR VASQUES DIAS, PIANO

I-Tunes:

"Estas canções sobre poesia feminina hispano-árabe, sendo um reconhecimento de que a ousadia, o amor e o desejo são eternos, provocam-me a nostalgia de épocas antigas. Todo o meu carinho e admiração às mulheres que me inspiram nesta viagem de criação. Eu, como compositor, quis recordá-las desde o meu sentir.".

Informação detalhada:


“Amílcar Vasques Dias e Joana Machado conseguem transcender barreiras com a música que apresentam neste CD. Há sonoridades profundamente jazzísticas que se fundem com texturas contemporâneas e com improvisações de uma fascinante imprevisibilidade harmónica, rítmica e melódica.
É um disco de uma generosidade incrível - completamente despido de artificialismos - é uma obra notável e inovadora que revela apenas um objectivo: a música na sua forma mais pura. E esse objectivo é completamente cumprido.”



PRELUDIO 
MI SEÑOR IBRAIM, VENTE A MÍ 
AY MAMÁ, MI AMIGO SE VA! 
INTERLÚDIO I 
SI OS VAIS, OH SEÑOR! 
INTERLÚDIO II 
ENVÍO UN SALUDO 
INTERLÚDIO III 
DE IMPROVISO, BESÓ MI BOCA 
ENAMORADA ESTOY, OH MAMÁ! 
INTERLÚDIO IV 
INTERLÚDIO V 
INTERLÚDIO VI 
VIENES TÚ A MÍ O VO YO A TU LADO? 
DEJA MI AJORCA 
POSTLÚDIO

Amílcar Vasques Dias


Ref.: NUM 1211



FLUTÁSTICA - Música para flauta e piano

I-Tunes:

ISTVÁN MATUZ, Flauta
NANCY LEE HARPER, piano
FLUTÁSTICA


Informação detalhada:


AS OBRAS
O Duo para flauta e piano (1970-1971) do compositor norte-americano Aaron Copland resultou de uma encomenda à memória do flautista William Kincaid (1895-1967) dos seus antigos alunos e amigos. A estreia foi dada pela aluna preferida de Kincaid, Elaine Shaffer (1925-1973), e pela pianista Hephzibah Menuhin (1920-1981), no dia 3 de Outubro de 1971, em Filadélfia. O génio do compositor é patente desde as primeiras notas da obra, que afirmam a sua identidade americana. O 2º andamento apresente um ar da canção da dor, que, apesar da sua simplicidade, possui complexidades rítmicas. O 3º é uma dança energética, que dialoga entre os instrumentos.




to the memory of William Kincaid 

1. 1. Flowing 05’14’’

2. 2. Poetic, somewhat mournful (attaca) 04’07’’
3. 3. Lively, with bounce 03’34’’ 



to Elaine Shaffer

4. 1. Moderato 01’55’’ 

5. 2. L\'istesso tempo 01’58’’
6. 3. Allegro giocoso 02’30’’
7. 4. Adagio/Allegro deciso/Adagio/Allegro
Meno vivo/Moderato/Poco più calmo 04’57’’



à la Mémoire de Madame Sprague Coolidge

8. 1. Allegro malinconico 04’37’’

9. 2. Cantilena (Assez lent) 04’03’’
10. 3. Presto giocoso 03’52’’



arranjo de István Matuz

11. 1. “Ave Maria” 05’01’’

12. 2. “Du bist die Ruh” 04’22’’
13. 3. “Trockne Blume” 03’18’’
14. 4. “Ständchen” 03’47’’



15. 1. Andante 10’39’’

16. 2. Large e dolce 03’07’’
17. 3. Presto 07’00’’


Total: 73’47’’




J. S. Bach (1685-1750)


Franz Schubert (1797-1828)


Francis Poulenc (1899-1963)


Ernest Bloch (1880-1959)


Aaron Copland (1900-1990)


O manuscrito da grande sonata para flauta e cravo é posterior de 1735. É nossa convicção que esta obra majestosa tem afinidades com a obra anterior dele de 1727, a Paixão de S. Mateus, BWV 244 (ver por exemplo a conclusão da 1ª parte “O Mensch, bewein, dein’ Sünde groß”, que tem uma configuração idêntica, quer do ritmo, quer da instrumentação). Assim, esta observação tem influenciada nossa interpretação e a escolha do tempi. A maestria da técnica contrapontista de Bach é patente nesta Sonata. O 2º andamento permite uma ampla ornamentação expressiva na linha melódica. A fuga do último andamento conclua com uma viva giga.


As quatro canções de Schubert (Lieder) apresentadas aqui _ “Ave Maria”, “Du bist die Ruh”, “Trockne Blume” e “Ständchen” _ são arranjos pelo István Matuz da linha vocal destas canções de Schubert. A expressividade melódica destas canções permite uma autonomia, sem depender no texto vocal.


A encantadora sonata para flauta e piano de Poulenc foi composta para flutist Jean-Pierre Rampal (1922-2000) e estreada pelo Rampal e pelo compositor no Festival de Strasburgo, no dia 17 de Junho de 1957. Desde então, tem sido uma obra de referência no repertório do século XX. O 1º andamento, apesar de ser revestido numa linguagem contemporânea, possui uma elegância característica do séc. XVIII. O 2º andamento é um dos mais bonitos e alucinantes de todas as obras de Poulenc. O 3º andamento permite uma execução brilhante dos dois músicos, enquanto revela o lado humorístico do compositor.


A Suite modale (1956) de Ernest Bloch é uma obra tardia do compositor suíço-americano, em duas versões: uma para flauta e cordas e a outra para flauta e piano. A obra é serena e atractiva, com os seus quatro andamentos intimamente ligados. Possui linhas melódicas claras, harmonias modais ricas e maestria contrapontística. Foi dedicada à flautista Elaine Schaffer. 


A As obras apresentadas neste CD foram tocadas em concerto pelos artistas no âmbito do 5º Festival Internacional de Piano \"Celebrando Grandes Pianistas\", no dia 3 de Julho de 2004, no Teatro Aveirense, em Aveiro, Portugal. O tema geral do Festival, \"Cruzamento Cultural\" é patente na selecção de obras, que abrange compositores de Estados Unidos de América, Suíça, França, Áustria e Alemanha, e que abrange estilos variados, tais como de barroco, classicismo até as várias escolas do Século XX/XXI. Também tocada no recital eram duas estreias mundiais de obras de jovens compositores portugueses, Jaime Reis e Hugo Ribeiro (Estátua de Pessanha e 7 Quadros, menção honrosas de 2º Concurso Nacional de Composição \"Jorge Peixinho\"), não apresentadas neste CD.


ISTVÁN MATUZ - FLAUTA


Aaron Copland - Ernest Bloch - Francis Poulenc - Franz Schubert - J. S. Bach


Sonata em si menor, BWV 1030


Lieder


Sonata for Flute and Piano (1956-1957)


Suite Modale for Flute and Piano (1956)


Duo for Flute and Piano (1971)


NANCY LEE HARPER . PIANO


Ref.: NUM 1212



FERNANDO LOPES-GRAÇA - Obra Coral a Cappella Volume I

Coro Sinfónico Lisboa Cantat
Coro de Câmara Lisboa Cantat


I-Tunes:


"Estes dois CDs concentram as três vertentes da escrita coral de Fernando Lopes-Graça, o mais lídimo representante musical de uma portugalidade telúrica, moderna e progressista. Neles encontramos harmonizações de melodias tradicionais, e ainda obras originais sobre poemas profanos e textos poéticos religiosos extraídos do Velho Testamento, como o Livro de Salmos e o Cântico de Salomão, também conhecido como Cântico dos Cânticos."




Informação detalhada:


Estes dois CDs concentram as três vertentes da escrita coral de Fernando Lopes-Graça, o mais lídimo representante musical de uma portugalidade telúrica, moderna e progressista. Neles encontramos harmonizações de melodias tradicionais, e ainda obras originais sobre poemas profanos e textos poéticos religiosos extraídos do Velho Testamento, como o Livro de Salmos e o Cântico de Salomão, também conhecido como Cântico dos Cânticos.
As harmonizações sobre melodias tradicionais são, de longe, o género mais abundante na produção coral de Lopes-Graça. Conhecidas que são as motivações estéticas, sociais, filosóficas, musicais e até políticas do compositor, tal não é de admirar. À imagem de outros grandes compositores folcloristas do século XX, como Bartók ou Kodály, que não só compuseram obras sobre melodias populares, mas também contribuíram para a recolha e preservação dessas mesmas melodias, Lopes-Graça dedicou grande parte dos seus esforços a essa tarefa hercúlea, da qual resultaram os 24 volumes das Canções Regionais Portuguesas (228 harmonizações, 1943-1988), retrato de um Portugal que hoje, praticamente, já não existe, um Portugal de costumes e ritos ancestrais, dono de uma riqueza musical espantosa para um território tão pequeno. A maior parte das obras inspiradas directamente pela música tradicional (em português e não só) foram compostas na década de 50, e a profusão de harmonizações corais no seio do catálogo imenso de Lopes-Graça deveu-se em parte à fundação, nos anos 40, do Coro da Academia de Amadores de Música, um agrupamento amador que, sob a regência inspirada do compositor, atingiria um alto nível artístico no seu género, especializando-se em particular na interpretação das “Regionais” e das Canções Heróicas.
A atitude de Lopes-Graça em relação à música do povo era clara: aproveitar a riqueza criada pelos camponeses para, sem a desnaturar, lhe dar uma roupagem erudita que enaltecesse essa riqueza, devolvendo-a depois a esse mesmo povo de uma forma mais elaborada. Um empréstimo com juros artísticos, podemos assim dizer. Para que tal acontecesse, o processo criativo deveria incorporar os dados técnicos dos originais na própria linguagem do compositor, tornando esses dados parte natural da linguagem e não mera casualidade derivada de um contexto irrepetível. Assim, certos tiques modais, certas ambiguidades maior/menor, o uso da prosódia e do ritmo, bem como as diversas combinações polifónicas e detalhes tímbricos da voz foram naturalmente assimilados por Lopes-Graça, sendo o resultado uma música que reflecte essa assimilação em todos os géneros cultivados, dos mais directamente relacionados com a melodia tradicional, como as “Regionais”, até aos mais abstractos, como a música de câmara.
Um dos interesses e preocupações mais constantes, presente também nas obras líricas não directamente relacionadas com a melodia tradicional, é a questão prosódica, tantas vezes maltratada em Portugal. Ouçamos o compositor, e reparemos na forma como Lopes-Graça relaciona a criatividade prosódica da canção popular com a abordagem do compositor erudito em relação ao texto a musicar:


Uma prosódia disciplinada e esteticamente eficiente é condição indispensável para que os próprios cantores se sintam à vontade na interpretação de um texto poético-musical; ela é um adjuvante técnico que lhes facilita não só o trabalho de respiração e articulação, como a tarefa de dar ao desenho melódico a necessária clareza...\\"



As obras corais originais de Lopes-Graça podem dividir-se, grosseiramente, em obras sobre textos profanos, normalmente da autoria dos nomes maiores da língua portuguesa, como Camões ou Pessoa, e obras sobre textos de cariz religioso (embora poesias populares e autores menores também façam a sua aparição, depois do crivo de uma apreciação criteriosa que demonstra um gosto literário sem falhas). O âmbito estético e temporal de todos estes textos percorre, tal como as melodias tradicionais das “Regionais”, toda a história literária portuguesa, dos clássicos à contemporaneidade, e incluem ainda poesia em língua castelhana. No caso do presente registo, optou-se por escolher obras corais “a cappella” de autores importantes mas não cimeiros, como os já citados Camões ou Pessoa. 

Temos assim poesias de Francisco Rodrigues Lobo (1579-1621), um dos mais importantes discípulos de Camões, considerado o iniciador do Barroco na literatura portuguesa, Afonso Duarte (1886-1958), poeta \\"saudosista\\" (mas também progressista; foi um homem sempre atento à novidade estética e atento a movimentos como os da Presença) que exaltou a beleza das terras do Mondego, José Gomes Ferreira (1900-1985), poeta, músico, e uma das presenças queridas do compositor. 

Qualquer uma destas obras (e o mesmo se passa com as obras religiosas) requer coros mais experientes do que os previstos para as “Regionais”, canções compostas com vista a aumentar o repertório dos coros amadores, mesmo dos menos experimentados.
Em Louvor do Sol (1956), cujo poema foi extraído do livro Rapsódia do Sol-Nado (1916) de Afonso Duarte, é uma das mais extraordinárias obras corais de Lopes-Graça. A música divide-se em duas partes, como o poema, que exalta na primeira o Sol, e na segunda a Alma do povo que trabalha duramente a terra. O início ressoa como um apelo vibrante, fazendo curiosamente lembrar a parte final – também ela um vibrante apelo à humanidade – do Requiem. Esse mesmo início pode ser ouvido de novo no final da obra, pois Lopes-Graça faz repetir a frase inicial do poema (\\"Seja louvado o Sol!\\"), criando assim um efeito de quase exaltação religiosa, de cariz panteísta. A música, de grande variedade textural, é, no entanto, extremamente coesa, coesão que é conseguida através do uso de motivos que circulam pelas duas partes da obra. Será talvez curioso notar que o mesmo Afonso Duarte publicará, entre 1950 e 1952, o Tríptico das Redondilhas, cuja terça parte se intitula Canto de Morte e Amor. Terá esta obra maior do poeta influenciado o seminal Canto de Amor e de Morte, de Lopes-Graça, composto em 1961?



A Cantiga às Serranas resultou de um pedido do maestro Jorge Alves ao próprio compositor, tendo-a este dedicado ao Coro de Câmara Syntagma Musicum, grupo fundado por Jorge Alves e Vasco Azevedo em 1985, que se dedicava fundamentalmente à música contemporânea. Foi estreada em Maio de 1987 no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, na presença do compositor. A música alterna entre um refrão diatónico reminiscente de algumas das “Regionais”, e momentos mais tensos, que, mais uma vez, lembram certos gestos do Requiem.

Por fim, resta a questão da música religiosa. Para um devotado comunista, e um suposto ateu, quer a linguagem de Lopes-Graça, principalmente a que ficou registada nos seus inúmeros escritos, de livros publicados a cartas enviadas, quer a própria obra musical, não são parcas em referências religiosas, e a amizade e admiração que durante parte da vida dedicou a figuras ligadas à Igreja (Tomás Borba e Manuel Faria, dois exemplos que me ocorrem imediatamente) indiciam um interesse e abertura a um mundo que, filosoficamente, não era o seu. Porque o credo do compositor era a música, e apenas ela:





Clerical não, religiosa sim. E no original latino, como manda a tradição.





2 2. Oh, que janela tão alta (Trás-os-Montes) 1’51’’

3 3. Fui-te ver, ‘stavas lavando (Alentejo) 2’08’’

4 4. Cantiga da Atalaia (Beira Alta) 1’10’’
5 5. O milho da nossa terra (Beira Alta) 2’31’’ 
6 6. Olha a laranja (Alentejo) 1’41’’
7 7. Maria da Conceição (Beira Alta) 1’56’’
8 8. Lá em baixo vem a raposa (Serra da Estrela) 1’31’’
9 9. Oh, feliz cadeia (Alentejo) 1’52’’
10 10. Na haste do castanheiro 1’31’’
11 11. Ó erva cidreira (Alentejo) 1’00’’
12 12. Limão doce 1’57’’ 
13 13. Malhão de Almaceda (Beira Alta) 1’24’’



15 2. Eu venho da macelada (Beira Alta) 1’49’’ 

16 3. Quando o teu pai me trocou (Minho) 1’26’’

17 4. Na aldeia de Amareleja (Baixo Alentejo) 1’32’’
18 5. O meu amor, de polido (Beira Alta) 1’15’’
19 6. Agora, no São João (Minho) 2’28’’
20 7. Os homens que vão prá guerra (Douro Litoral)* 3’11’’
21 8. A Senhora d’Aires (Baixo Alentejo) 2’17’’
22 9. Ó ladrão, que te vais embora (Beiras) 2’38’’



24 2. Rosa branca desmaiada (Alentejo) 1’34’’

25 3. Viva o nosso patrão d’hoje (Minho) 1’58’’

26 4. Na estrada de Braga (Minho) 1’47’’
27 5. Oh, que calma vai caindo (Beira Alta) 1’53’’
28 6. A rolinha da calçada (Beira Alta) 1’14’’
29 7. Quem se casa diz que morre (Porto Santo – Madeira) 1’06’’







2 2. Nem contigo nem sem ti (Beira Alta/Canc. Popular)* 1’50’’

3 3. Ó ladrão, ladrão (Generalizada) 2’24’’

4 4. Ai, por cima se ceifa o pão (Beira Baixa) 1’23’’
5 5. Romance de Mirandum (Trás-os-Montes) 2’38’’
6 6. Ai, ó ai, meu bem (Algarve)* 2’26’’
7 7. Ó meu amorzinho (Minho)* 1’04’’
8 8. São horas de emalar as troixas (Douro Litoral) 1’58’’
9 9. Este nosso amo d’hoje (Trás-os-Montes) 1’21’’
10 10. O coletinho (Beira Baixa) * 2’59’’



12 2. Rezemos um Padre Nosso (Chão de Lopes, B. Baixa) 0’56’’

13 3. Alerta, alerta (I) (S. Gens de Calvos, Minho) 1’17’’

14 4. Recordai, ó irmãos meus (Mons. da Beira, B. Baixa) 1’05’’
15 5. Ó almas que estais dormindo (Monf. da Beira, B. Baixa) 2’06’’ 
16 6. Acordai, pecadores (Sércio, Trás-os-Montes) 1’26’’
17 7. Alerta, alerta (II) (Minho) 1’44’’
18 8. Ó meu divino Senhor (Beira Alta) 1’58’’
19 9. Bendita e louvada seja (S. Miguel de Acha, B. Baixa) 3’50’’
20 10. Irmãos meus, cuidai na morte (Vinhais, Trás-os-Montes) 2’49’’
21 11. Ai, recorda, ó pecador (Donas, Fundão, Beira Baixa) 2’18’’





24 2. Enxada à terra 2’23’’





27 Concordiae fratrum jucunditas (Salmo 132) 3’48’’


Total 58’29’’


Dois Salmos 


25 Cantiga às serranas - Texto: Francisco Rodrigues Lobo 3’56’’
Em louvor do Sol - Texto: Afonso Duarte


22 Balada de uma heroína - Texto: José Gomes Ferreira 4’06’’
Série XIV “Onze encomendações das almas”


Série IV “Canções Regionais Portuguesas” 


CD 2 - Coro de Câmara Lisboa Cantat


TOTAL 51’21’’


Série III


Série II


Série I “Canções Regionais Portuguesas”


CD 1 – Coro Sinfónico Lisboa Cantat


Assim, Lopes-Graça parece interpretar a palavra “religião” no seu sentido original, a de ligação entre as pessoas, e para esse objectivo social a música seria o instrumento ideal. No entanto, o compositor, como vimos, não vira as costas aos belos textos da tradição cristã, ou de inspiração religiosa, não só porque os mesmos se encontram nas melodias populares que harmonizou, oriundas de um país profundamente religioso como era (e em parte ainda é) Portugal, como também decerto pelo apurado sentido estético de Lopes-Graça, que não podia deixar de reconhecer nesses textos maravilhas poéticas e inúmeras oportunidades de ilustração musical. Dos Salmos ao Cântico dos Cânticos, das Cantatas de Natal ao Requiem, do Presente de Natal para as Crianças, e dos Dos cantos religiosos tradicionales de Galicia às Encomendações das Almas, a produção do compositor sobre textos sacros é, encarada por qualquer prisma, de uma abundante e altíssima qualidade.


“Que hei-de dizer-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance? Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião (...) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia”.


A Balada de uma heroína (1953, rev. 1969), sobre o conhecido poema de José Gomes Ferreira (do qual Lopes-Graça musicará vários outros textos, incluindo as mais conhecidas das “Heróicas”), e a Cantiga às serranas (1987), de Francisco Rodrigues Lobo (poema incluso nas “Obras políticas e pastoris”, publicadas em 1774), completam esta breve panorâmica de obras corais profanas. Com características opostas em termos de carácter e objectivos, dramática a balada, mais pastoril a cantiga, ambas demonstram à saciedade o escopo criativo e a diversidade musical de que Lopes-Graça era capaz sem ter de sacrificar a sua linguagem tão própria. 


Preocupado também em tornar as canções corais acessíveis a coros amadores, Lopes-Graça conseguiu, ainda assim, uma riqueza e diversidade notáveis dentro das limitações, quer de registo, quer polifónicas, a que se viu obrigado a recorrer. A escolha das melodias, para além de percorrer todo o território nacional, obedeceu também a critérios artísticos precisos, não sendo de admirar que as mais belas, arcaicas e originais canções encontrem o seu lugar nesta colectânea. Da ambiguidade modal da Canção da Vindima (Beira Baixa), até à pureza renascentista (maravilhosamente aproveitada pelo compositor) de Os homens que vão prá guerra (Douro Litoral), passando pelo vigor rítmico de Na haste do castanheiro (?) e Eu venho da macelada (Beira Baixa), até ao arcaísmo narrativo do Romance de Mirandum (Trás-os-Montes), as “Regionais” espelham um povo de uma criatividade musical espantosa, uma criatividade ainda não contaminada pelas rádios e televisões, que lhe impuseram subprodutos infecciosos, como os falsos regionalismos ou a música ligeira puramente comercial.


\\"...A acentuação multiforme do português, as subtilezas de quantidade silábica que apresenta, a sua enervante desarticulação (que grande escritor espanhol disse ser o português uma espécie de \\"castelhano sem osso\\"?), o característico smorzando das suas terminações - tudo isto são aspectos notáveis do idioma a que se me afigura não ter a generalidade dos nossos músicos prestado a devida atenção, nem haverem cabalmente enformado por enquanto a prosódia das suas produções vocais...\\"


Sérgio Azevedo


*Coro Sinfónico Lisboa Cantat


26 Jubilate Deo (Salmo 99) 2’24’’


23 1. Seja louvado o Sol 2’38’’


11 1. Se dormis, cristãos (Beira Baixa) 0’47’’


1 1. Portas d’Elvas, portas d’Elvas (Alentejo)* 1’12’’


*Direcção de Clara Alcobia Coelho


23 1. Já os passarinhos cantam (Beira Alta) 1’20’’


14 1. Não segueis o trigo verde (Trás-os-Montes) 2’08’’


1 1. Canção da vindima (Beira Baixa) 1’32’’


A linguagem de quase todas estas obras sacras, nomeadamente nos dois Salmos (nº99, de 1956, rev. 1964, e nº132, de 1972, rev. 1974) é, em geral, cromática e tensa, de cariz polifónico, como é usual quando se tratam textos deste teor (no caso de Lopes-Graça, o que também seria de esperar, a linguagem tende a ser bastante mais diatónica nas obras destinadas às crianças e naqueloutras baseadas em melodias populares). A excepção é, ou são, os dois coros do Cântico dos Cânticos de Salomão (1976), cuja ambiência amorosa (por vezes mesmo erótica, noutros dos “Cantos”) e liberdade de sentidos que sugerem os colocam numa outra dimensão, mais humana, logo, mais terrena, e porventura mais próxima do coração de Lopes-Graça, um homem do povo, um homem cuja música foi sempre pensada e escrita em função da vida dos seus semelhantes, das suas lutas, aspirações e anseios. 


A Balada de uma heroína (outra obra extraordinária), imediatamente reconhecível como sendo da pena de Lopes-Graça, na sua mistura de diatonicismo rústico, cromatismo e bimodalismo maior/menor (uma das marcas mais constantes do compositor desde o seu Opus 1, as Variações sobre um Tema Popular Português, de 1927), mostra-nos ainda um artista conhecedor das técnicas das vanguardas da altura, as quais, ainda que não delas adepto fervoroso, conhecia perfeitamente. Toda a secção final da “Balada”, com o seu misto de textura recitada e cantada em diferentes planos sonoros, demonstra esse conhecimento, mesmo se, como afirmámos, nunca Lopes-Graça se tenha deixado completamente levar nessa direcção mais experimental. 


Dentro das “Regionais” encontramos ainda o curioso volume XIV, intitulado Onze encomendações das almas, que agrupa e recupera uma tradição arcaica (dizem alguns que oriunda dos escravos africanos que por aqui foram passando, como pensam os brasileiros que conservam também este costume na sua tradição popular, enquanto outros afirmam ser uma tradição já antiga em Portugal, nomeadamente na Beira Baixa e em Trás-os-Montes, tradição que, como muitas outras, encontra paralelo noutras culturas). A “Encomendação das almas” é uma celebração associada ao culto dos mortos, que ocorria (e ainda ocorre) nas sextas-feiras da Quaresma, a partir da meia-noite. Um grupo de homens e mulheres percorre a aldeia durante a noite para lembrar àqueles que “já dormem o primeiro sono” (os vivos) que é preciso rezar pelos que dormem o sono eterno, para que estes possam entrar no Paraíso. Tal como outros ciclos corais oriundos de tradições velhíssimas cuja origem se perde no tempo (Três esconjuros, de 1956, por exemplo), as “Encomendações” despoletaram no estro criador de Lopes-Graça uma identificação artística tão una com o original, que nos perguntamos onde acaba um e começa o outro.


\\"...É certo que a canção popular não pode servir de modelo, de paradigma prosódico, para a canção culta; mas não seria mau que esta por vezes aceitasse os \\"ilogismos\\" da prosódia que aquela amiúde apresenta, verdadeiros achados que só aparentemente são deslizes ou incorrecções devidos à incultura e ao simplismo do povo, o qual nisso, como em tantas outras coisas, revela com frequência verdadeira sensibilidade e gosto artístico.


Ref.: NUM 1204 - DIGIPACK DUPLO